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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Por Mais Que Eu Reze - Ensaio I

Andarilho peregrino e vago, anda pelas ruas a procura de algo. Cansado das misérias que as pessoas lhe dão, desabafa.

ANDARILHO - Eu já me cansei de pedir esmolas. Já cansei de ser alvo da piedade: quanto mais me dão, mais me ignoram! Então, basta! Não os quero mais! Guardem seus trocados para seus cafés de amanhã! Ei, moça, tome este real e alimente tua beleza com seus batons cor de sangue. O senhor, compre teu bom e velho cigarro, que o alimenta desde os bons tempos da jovem-guarda. E o menino, compre teu lápis pois teu estudo é futuro...

O andarilho vai perdendo a atenção para duas senhoras que veem conversando.

PRIMEIRA SENHORA - ...e sem ele como alguém vai poder fazer alguma coisa? Pois é, menina. O nosso mundo está perdido, depois de tudo o que você me contou, eu juro diante do pé de Nossa Senhora Desatadora dos Nós que nossos tempos, já não servem mais.

SEGUNDA SENHORA - Pela Santa Cruz, vizinha! Eu já não sei o que fazer. Não adianta promessa pra santo e nem surra, o menino faz o que faz e ai de quem se meter a falar alguma coisa.

PRIMEIRA SENHORA - Eu não sei o que te dizer, amiga, não sei. Não consigo imaginar qualquer conselho pra essa situação. Meus problemas já são tantos, que mal posso tentar resolver o dos outros. Imagine se uma pessoa como eu saísse por ai tentando resolver os problemas dos outros, isso seria uma...

A atenção das senhoras é interrompida por um homem de trajes sociais falando ao telefone celular.

HOMEM - ... catástrofe total! Não dá! Não dá! Não existe essa possibilidade, seria como tentar colocar o Brasil dentro do Japão! O senhor tem que entender que eu não tenho condições o suficiente pra poder pagar tudo isso. Problema de quem? Não só meu, problema de todo mundo. Então, eu tenho que trabalhar oito horas por dia e não ter o privilégio de ver meu coringão quarta de noite? Ahhh, pelo amor de Deus. O senhor tá achando que dinheiro nasce em árvore pra cobrar tudo isso por um fio queimado da minha televisão? É a crise, é a crise! Agora tudo tá em crise?! Faça-me o favor, se o teu filho caga mole é por causa da crise?! Senhor, por favor, a gente tem que entrar num acordo. Se ficarmos brigando assim por causa de dinheiro, o mundo vai se acabar em...

O andarilho volta a cena.

ANDARILHO - ... andarilhos! Mendigos! Não é assim que os senhores me chamam! Obrigado! Pois eu, saibam, tenho vida e morada. Nunca corro o risco do teto desabar em minha cabeça e nem ser traído pelos meus amigos, pois não os tenho.

4 comentários:

Ásafe disse...

Minha nossa!

Tá num momento "Parnasiano" da vida, meu filho? o.O

Ok... Com uma mistura de Gil Vicente, mas, né...

Anyway, embora ganhe o prêmio do rei do drama, o texto tá muito bom!

:D

Hug ya!

Anne Kravitz disse...

Fato, cada um com seus problemas... E quem não os tem?
Saudade dos seus textos, fazia tempo que não passava por aqui.
Beijos!

Vaninha® disse...

Nossa! Ficou bonito isso aqui!!!!!!!!!!!!

Anne Kravitz disse...

Édyson, volta pra vida blogueira, cara! XD Estamos sentindo sua falta.
Beijo