Pages

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Memórias de um marinheiro

[...]

(Pedro imitando Ritinha)

"Pedro, você vai pra guerra?"

Vou! Quero dizer, não, Ritinha. Eu vou pro mar!

"Mas esses navios, vão pra guerra!"

Bobagem, Ritinha. O importante é que vou estar onde eu quero. Você também vai querer ir pra algum lugar onde se sinta bem. O meu, é o mar!

"Está bem, Pedrinho. Você está certo. Tem que ir em busca dos seus sonhos. Eu também vou atrás do meu!"

Qual é o seu, Ritinha?

"Ah! O meu? É ser atriz de cinema! De fazer grandes filmes: comédias, dramas... e romance!"
Romance, Ritinha? Você gosta?

"Sim, acho lindo. Ainda mais aqueles em que o mocinho é alto, forte e bonito. Pega a gente assim e lasca um beijo!"

Assim?

"Pare de sem-vergonhices, Pedro! Estava só dizendo como quero fazer um filme..."
Ritinha, antes de ir embora quero fazer uma coisa!

"O que é?"

Coisa de filme de romance.

"Que coisa?"

Ah você sabe... aquilo que eles fazem nos finais de filme!

"Não sei não, Pedro! Eu nunca assisti! Só estava comentando!"

Sabe sim, é coisa boba de mão com mão, braço com braço, boca com...

"Boca com a minha mão se você vier fazer graça! Você sabe que não tenho idade e não estou preparada."

Só mão com mão!

"Não!"

Dedo com dedo?

"Não!"

Unha com unha? Sim!

"Também não, bocó."

Então eu vou embora, dizer adeus pra Dorinha!

"Não! Volte aqui! Vamos, diga, como é que é esse negócio de mão com mão?"

(Pedro senta-se)

É assim, você põe a mão na minha perna e eu coloco a minha na sua. As mãos fazem carinho, os dedos se encontram até que eles deitam e o nosso compromisso ta selado.

(Faz tudo como dito, com as duas mãos.)

"Pronto, Pedro. Já deu."

Adeus, Ritinha.

"Espera, Pedro! Fica assim, de frente pra mim. Abra os braços e me abraça, Pedrinho! Me abraça!"

(Quando ele vê, está abraçado sozinho.)

Ritinha me deu uma foto nossa, e seu abraço mais gostoso. É abraço de papai de Noel na época de natal. Forte e gostoso, pra ver se o presente vem no dia vinte e cinco.
Depois me despedi dos amigos, do tio Dorival e da família lá de casa. Cada um me deu uma foto.
E a minha partida foi a mais linda.

(Pega a mala, surgem barulhos de navio e música animada. Pedro sobe em um plano e de frente, acena com as mãos dando adeus.)

--------------------------------------------
Fragmento do monólogo Memórias de um marinheiro. Quem fala é Pedro, marinheiro perdido em alto mar que lembra dos grandes momentos de sua vida. Esse é um dos meus trechos preferidos, quando se despede de Ritinha. Mais? Pede e eu posto.
Obrigado ao pessoal que me recebe muito bem na blogosfera! Estou linkando todos.
Até a próxima sessão!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Compra de Briga

O lugar é todo branco. Aparece Eu Hoje (EH), num sofá lendo um livro está Eu Ontem (EO) e numa escrevaninha Eu Amanhã (EA). EH parece entusiasmado, EO entretido no livro e EA, talvez escrevendo algo com pressa.

EH- Gente, comprei a briga!

Silêncio.

Comprei a briga, gente! Estão ouvindo?

EO para de ler e senta-se.

EO- Comprou o quê?
EH- A briga!
EO- Que briga? Do que você ta falando?
EH- Da briga, filhote. Eu já me decidi! Poxa, to feliz da vida!
EO- Mas, decidiu o que? O que vai fazer?
EH- Vou fazer o que eu sempre quis!
EO- E o que eu sempre quis?
EH- Ué! Você não sabe o que sempre quis?! Ei, aquilo que você vai querer fazer quando crescer, quando tiver a minha idade!
EO- Eu ainda não tenho a sua idade. A única coisa que eu sei é o que quero agora!
EH- Você já deveria estar sabendo. Afinal o que você quererá, eu quero e ele quis.

Apontando pro EA.

EA- O que eu tenho a ver com isso? Não me envolvam nesse papo de criança versus adolescente!
EH- O que você tem a ver? Tudo a ver! Pois o que eu estou querendo agora, é o que você está fazendo! Se você tem tudo o que tem, deve a mim! Pois fui eu quem um dia pensou em ter tudo isso, em ir correr atrás de tudo isso.
EO- Eeei, não se esqueça de mim, ô seu bocó! Se você é tudo isso que está falando agora, deve tudo a mim! Pois se tem coragem pra enfrentar tudo isso e força pra conseguir tudo, foi por causa de mim que sempre sonhei em ser isso que ele lá ó, tá sendo.
EA- Parem com essa discussão pra cima de mim! Eu to precisando escrever! Escrever muito! Tenho espetáculos pra estreiar, figurinos pra fazer e projetos pra montar. Eu não paro e estou tentando escrever uma peça porque é meu trabalho! E nenhum de vocês dois fez isso por mim.
EO- Ô senhor metidão a artista, pois saiba o senhor, que se tem a capacidade que tem é porque eu leio muito, eu desenho muito e penso demais, tás?!
EH-Muito bem, menino! E se você consegue fazer tudo isso é porque eu fui um dia atrás pra aprender tudo isso, e porque um dia eu comprei a briga!
EA e EO- Que briga?
EH- Essa briga que estamos tendo. A do seu sonho, menino e a do seu sucesso, senhor.

Silêncio de reflexão. Todos entre olham-se. EO volta a ler. EA a escrever e EH liga o computador e vai postar em seu blog. Luz some.

FIM

*

O Corra enquanto é tempo recebe uma cara nova e conteúdo novo. Agora é um blog de textos teatrais, onde a dramaturgia é a peça chave. Por que isso agora?

Porque eu comprei a briga.

Agradecimentos: Drama Diário pela inspiração.
Até a próxima sessão!