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sábado, 4 de abril de 2009

Entendo

(Um poste com luz baixa. Há um sujeito com roupas de trabalho, amarrotadas. No chão uma garrafa de cerveja vazia e copos usados. Bitucas de cigarro compõe o cenário. Seu olhar é distante, atravessa a lua.)

Outro dia, eu condenei quem usava qualquer coisa pra beber e fumar. Meus pais já foram julgados por mim, como os pecadores seriam no purgatório (assim ensina a catequese).
Eles fumavam e ele bebia. Eu não gostava, abominava; poderíamos ter comprado a casa que tanto queríamos se parassem com tudo isso.
Eu era uma criança. Depois de crescer, de viver e me apaixonar; outro dia eu entendi eles.

Entendi as bitucas jogadas por minha mãe da janela do apartamente. Talvez, tenha entendido meu pai chegando com seus porres em casa.

Claro que tem coisas incontestáveis, mas eu entendi.
Entendi que quando a droga do amor invade nossas víceras, quanto o tormento da tensão insiste em cutucar-nos ou quando a coléra da tristeza ataca sem piedade... a carne é fraca e a gente precisa da natureza pra se fortalecer.
Entendi que os olhos humanos são fracos, pois acreditam que aquilo é a cura, mas não é...

Não faço apologias, meu caro público. Eu só entendo que quando nosso corpo produz uma droga sentimental, as pessoas usam outras (naturais) para aliviar.

É, eu entendo.

E que se fodam os significados.

(Recolhe tudo e sai. Garoa)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O Pipoqueiro - Rascunho parte I

Escuridão. Ouve-se barulhos de pipoca sendo estourada, entra a melodia e uma voz OFF acompanha.

O PIPOQUEIRO

Se já faz noite
Ele se achega
Sempre em segredo
Pra quem não crê
Pára na praça
Perto de um banco
Sua cor é graça
Amarelo e branco
Em outros dias
Está colorido
Praça vazia
Noite de circo...

A voz se mistura com a de Amélia que entra com roupa de passeio, há um poste de luz e um banco de praça.

AMÉLIA - Pelas minhas contas, já era pra ele ter voltado! Mas já são oito horas e ele ainda nem apareceu. Poxa vida! (Abre sua bolsinha que e pega umas moedas. Contando) Logo hoje que mamãe me deu dinheiro pra comprar um saco dos grandes! Droga, viu?!

Senta-se no banco e fica de cabeça baixa, triste. Entra o vendedor de balões, nota Amélia.

VENDEDOR - Ei, menina! Quer balão?
AMÉLIA - Não, obrigada.
VENDEDOR - Por que não? Posso saber?...
AMÉLIA - Porque eu quero pipoca, e não balão.
VENDEDOR - Mas o pipoqueiro não vem mais aqui.
AMÉLIA - Eu pensei que ele viria, por isso eu vim.
VENDEDOR - Então, ele não veio. E acho que não virá assim tão cedo.
AMÉLIA - Por quê?
VENDEDOR - Porque o pipoqueiro encontrou outros motivos e razões. A pipoca não segurava mais ele aqui.
AMÉLIA - Você sabe o que aconteceu com ele?
VENDEDOR - Sei. O pipoqueiro era meu amigo, contou-me tudo antes de ir embora.
AMÉLIA - Então me conta!

Ouve-se o dedilhar de um violão, o Vendedor canta.

VENDEDOR -

História de vida

Chega uma hora
na vida da gente
pode ser agora
assim tão derepente
Ou pode ser depois
depois de um
ou outros dois
que tudo fica incomum.
O homem quando vê
a beleza d'uma moça
faz tum-tum batê
quebra-quebra toda loça.
Assim foi que aconteceu
na vida do senhor
A jardineira conheceu
plantou nela amor...

[ Continua... ]